quarta-feira, outubro 31, 2007

NOTAS SOLTAS II

...Um sorriso imenso e doce inundava-lhe então o rosto moreno, os olhos tomavam a profundidade de mil lagos e enchiam-se de uma ternura sem par, puxava-a meigamente para o seu lado sentando-a nos joelhos e iniciava um novo trecho com ela presa no seu pescoço e a cabeça reclinada no seu ombro. Invariavelmente a música cessava e apenas o crepitar do grosso toro de madeira na lareira se ouvia, a noite terminava com os murmúrios fracos e o riso breve enquanto ele a carregava nos braços escada acima. Mas esses doces momentos tinham tido um fim abrupto e rude nas falésias assassinas no Inverno anterior. Agora voltavam as angustias das noites sem fim, do cadeirão vazio e das chamas sem brilho, voltava o aguilhão imenso da saudade, da ausência, do vazio, do rosto sereno e perdido nas noites longas e aconchegantes de inverno, porque sentiria tanto a sua ausência no inverno?
Enquanto os pensamentos deambulavam perdidos na dor da perca e na angústia da solidão, as mãos não paravam o seu incansável ardor sobre as teclas, acariciando aqui, martelando além, num vai e vem constante. Mal dera pela entrada de Alberto e não fora o ligeiro latido do cão a saída teria sido tão desapercebida como a entrada. Calou-se o som e estacaram os passos do velho criado, que lentamente vira o rosto para o piano à espera da reprimenda, mas é recebido com um sorriso apagado e sem cor, e as palavras vindas do fundo de uma alma desesperada; - “Porquê Alberto? Porquê? Está tudo tão morto ao meu redor!!!”
Sem esperar por este desabafo, e sem saber muito bem como, encaminha-se para o piano e coloca-se ao lado de Armando pousando a mão ossuda e marcada pelos anos sobre o ombro enquanto lhe responde; - “Porque a felicidade não é eterna, é apenas feita de pequenos pedaços espalhados pelas nossas vidas senhor. A D. Helena foi um pedaço dela, mas mais, dentro em breve virão, tenho fé e esperança que sim, esta casa não pode morrer assim.” – Dito isto deu um leve palmadinha no ombro do jovem amo e encaminhou-se para fora do salão. De novo o silencio apenas quebrado pelo vento mais forte e o marulhar das águas agitadas na apertada praia, o olhar vai pousar no cadeirão vago e a mente atraiçoa-o uma vez mais, de novo o corpo flexível e esbelto de Helena se enrola encolhendo-se no aconchego do tecido escuro, a sua maneira especial de olhar para ele e ao mesmo tempo aquele etéreo pairar sobre tudo como se não pertencesse em boa verdade a este mundo, parecia tão despegada do mundo por vezes, e no entanto a sua atenção era minuciosa e sempre desperta, sabia quando ele a olhava e como olhava, sabia se estava bem ou mal, calmo ou irritado, triste ou alegre ainda que o seu rosto mostrasse a impenetrabilidade dos rochedos que os rodeavam. Fora uma mulher especial! E era esse vazio que lhe tolhia o coração, a alma e vida. Desde a sua morte cessara quase por completo as suas actividades e nos primeiros tempos só o encontravam sentado no penedo de onde Helena caíra, absorto, alheado de tudo e todos, de olhos perdidos ora no horizonte ora nas rochas no fundo da falésia. Aos poucos a actividade profissional reclamava por atenção e a vida tinha que continuar e passados três meses voltou ao escritório onde a acumulação de serviço não lhe deu tempo para grandes pensamentos e exigiu a máxima capacidade de resposta e resolução. Agora, um ano volvido, a vida decorria a ritmo lento e sem cor, mas dentro da normalidade, não foram os momentos de dor profunda e desespero vincado que o assolavam e deixavam sem norte nem rumo e tudo, aparentemente, estava normal.

No meio do silêncio quase sepulcral eleva-se de repente um travar brusco de um rodado de pneus com um chiar pavoroso de travões, o Labrador ladra furiosamente, saltando como um louco de encontro a janela e Armando estremece como se uma corrente o tivesse subitamente atravessado. Levanta-se de um salto e esbarra com Alberto que corre para a rua com uma lanterna em direcção ao final da estrada, Como é possível que alguém se tenha aventurado por uma estrada bem sinalizada de “sem saída”, numa noite como aquela? Não teria visto os diversos sinais? Estranho. Quase impossível!
Ambos correm apressadamente para o local com o cão a saltar ao seu lado, sem parar de ladrar. Mesmo sobre a laje grande onde tantas vezes uma mesa e duas cadeiras haviam estado para desfrutarem um por do sol frente a um refrescante sumo de frutas, está agora um carro com uma das rodas perigosamente fora da rocha e em equilíbrio instável. Faróis acesos e um vulto imóvel, estático lá dentro no lugar do condutor, a cabeça descaída sobre o volante escondido o rosto por uns longos cabelos anelados. Segurando o cão pela coleira e estranhado a imobilidade da mulher, Armando tenta abrir a porta do carro, que oscila perigosamente, fazendo-o avançar com extremo cuidado para tentar retirar a rapariga sem que o veículo se precipite talude abaixo arrastando mais uma vida consigo.
Alberto segura a lanterna e o cachorro que furioso não cessa de ladrar. Ao puxar devagar o corpo inerte descai sobre o seu ombro uma cabeça em sangue que jorra de um golpe profundo na testa mesmo sobre o sobrolho, a custo consegue tira-la sem que o carro se despenhe e carregando-a nos braços apressam-se para casa deixando para depois as preocupações com a viatura que fica mansamente a oscilar sem saber se tombe para a frente e acabe de uma vez com a vida, ou se se agarre ao que resta e se imobilize sobre a laje.
Chegados a casa Alberto afadiga-se em trazer para a saleta o estojo dos primeiros socorros e Armando de pousa a sua carga na chaise longue, vendo pela primeira vez à luz o rosto desfigurado da rapariga. Limpam a ferida e pensam-na, mas é em vão que tentam despertar aquele corpo que não parece querer regressar ao mundo dos vivos. Umas olheiras profundas cercam os olhos cerrados, os lábios estão apertados numa linha fina e arroxeada, e as mãos finas e quase transparentes pendem sem graça ao lado de um corpo elegantemente vestido, de formas graciosas. Os pés estão calçados com uns sapatos confortáveis sem contudo perderem o seu quê de elegância e bom gosto. Mas traze-la de novo à vida é que maugrado de ambos não conseguem.
Aquecem-se botijas, acende-se a lareira e cobre-se a moço com uma manta quente e felpuda, e só algum tempo depois uma ténue cor volta ao rosto, as mãos se agitam e o corpo se distende em vários espasmos. Aos pouco vai voltando a si, sem contudo se aperceber bem do que a rodeia nem do que se passou...

(continua...)

3 comentários:

Fernanda e Poemas disse...

Olá Luar,minha querida, lindo texto.
Beijinhos,
Fernandinha

Lu@r disse...

Encantas, enquanto contas...

Beijo-te suavemente

Lu@r disse...

Uma mudança no rumo da vida, quem sabe chegou o momento de viver sem medo.

Beijo suave em ti