sexta-feira, abril 13, 2007

NEGRO VELUDO



O dia acabava lentamente, morria nas suas agonias de Inverno frio e chuvoso, triste, arrastado, escuro. Para ela era apenas mais uma dia de trabalho que findava, a semana estava quase passada mas fora pesada e dura. No emprego o ambiente era de tensão permanente, em casa era de um abandono total.
Nesse dia voltou para casa exausta e sem vontade para mais uma noite de três palavras, de preparar as roupas e as comidas e de se deitar sem um simples gesto de carinho, uma atenção ou um mimo por mais pequeno que fosse. Olhou o céu plúmbeo e desconsolada abriu o chapéu de chuva encaminhando-se para a saída, os seus passos ecoavam na calçada de uma forma estranha, e dir-se-ia que passeava enquanto todos os outros corriam apressados para se recolherem e regressarem rapidamente aos lares, onde pelos menos estariam abrigados daquela chuva fria e incomodativa que dos céus desabava sem dó nem piedade. A sua cabeça ia nem ela sabia bem onde, algures num local aprazível onde o vazio em que passava os dias, nada era mais do que triste recordação, e onde ao seu lado alguém a fazia sentir mulher, amada, desejada, querida, alguém. A chuva martelava no tecido verde-escuro do chapéu com mais intensidade mas nem isso a fazia estugar o passo. De repente sem ela saber bem de onde viera, apenas ouviu um ranger de pneus atrás de si, e depois um embater surdo e duro no seu corpo vergado para se equilibrar contra o vento agreste, daí para a frente foi a escuridão total…
Ouve os sons ao seu lado, sente o toque de umas mãos quentes que prendem as suas, está acordada e desperta, vira a cabeça para o lado do som, mas somente um negro azulado se lhe apresenta aos olhos. Estranho!...Que se passa? Porque ouve, sente, fala, cheira, mas…Não vê?
Aos poucos a sua estranheza vai dando lugar ao medo, ao pânico, e por fim ao desespero. Ao fazer a pergunta que lhe queima a garganta, mas que tem, ao mesmo tempo, um pavor imenso de fazer, irrompem as lágrimas doridas e os soluços sacodem o seu corpo martirizado pelo atropelamento grave que sofrera; - “Lamento, mas não conseguimos recuperar-lhe a visão. Está cega!”
Dos olhos pensados correm em fio lágrimas de dor e de pavor. Agita-se, remexe-se, revolta-se num desespero profundo, numa agonia que voz alguma consegue acalmar, que mão alguma consegue abrandar. Já nem ouve as recomendações médicas que a proíbem de chorar, nem os ralhos mansos dos que as rodeiam, nem sente as mãos amigas que a tocam e tentam segurar e sossegar. Apenas e só aquela frase lhe grita aos ouvidos impiedosa e dura: Estou cega, estou cega, estou CEGA!!!!!!!
Acabou a hora da visita, ficou de novo só consigo mesma, e a voz do medo fala-lhe de novo, insinuante, trágica, marcante e poderosa como só medo é capaz de fazer;
- Daqui para a frente serás a pobrezinha que sempre viu e deixou de ver, como vais adaptar-te à vida sem os olhos? Como é o trabalho em que o computador era a tua vida, a leitura, a escrita, as correcções de exercícios, as expressões dos miúdos que tão bem decifravas, como é a escola, as deslocações, como é o girar em casa, a condução…Como vais viver? Serás a “ceguinha” coitadinha, e terás que conviver com essa realidade até ao fim dos teus dias. Vais perder o norte, vais deixar de te orientar, vais precisar mais do que nunca que te levem, indiquem, te guiem – A sua vida estúpida e sem sentido parecia-lhe agora um mundo cheio e vibrante, um caleidoscópio de alegria e vivacidade, de luz e cor, que jamais voltaria a ver. Queria desesperadamente voltar ao anoitecer daquele fatídico dia, em que atravessara a passadeira dos peões e já a meio dela fora arrastada pelo condutor embriagado num voo de mais de 20m, para aterrar de cabeça no duro asfalto que a deixara com múltiplas fracturas nas pernas e nos braços, algumas costela partidas, um traumatismo craniano, mas acima de tudo a deixara no mundo da escuridão. Queria fazer andar para trás os ponteiros do relógio, os dias e as noites, queria a sua vida idiota e sem brilho de volta, queria as suas horas de dor e solidão, o cansaço dos pontos corrigidos até quase ao nascer de um novo dia, os litros de café bebido para se manter acordada, o desinteresse do marido, as correrias no supermercado para chegar a casa com tempo para tudo o que tinha à sua espera. Queria voltar a deliciar-se com um bom livro lido no calor dos lençóis em madrugadas de insónia, queira…Queria…Queria…
Mas o negro que a rodeia é mais forte que qualquer sonho, mais real que qualquer esperança ainda que remota, que em si teima em habitar. Sempre que roda a cabeça para onde lhe parece ter lógica estar uma janela, apenas o silencio negro, hiante, descontrolado, lhe responder, ainda sem permissão para se levantar do leito onde o gesso numa das pernas pesa arrobas e as ligaduras a envolvem como a uma múmia, sente a angustia crescente de não saber onde está, nem poder identificar o espaço, sente a ameaça do desconhecido, o pavor do escuro, como criança indefesa em quarto sem luz em noite de trovoada. Calada, encolhida no seu tormento cego, apenas sente o peso da realidade sem capacidade para enfrentar a vida sob este novo aspecto. De cada vez que se “esquece” e olha para algum lado na esperança vã de vislumbrar uma luz, uma cor, uma imagem ainda que distorcida, só aquele veludo macio e negro, aquela noite eterna se lhe apresenta, e as lágrimas que vai reprimir quando acompanhada, soltam-se como ribeiros selvagens e indomados dos seus olhos outrora belos e meigos, e que agora nada mais são que duas esferas esverdeadas sem centelha de vida ou vivacidade. Rodam desolados nas orbitas sem sentido nem graça, sem rumo nem esperança.
Passa pela fisioterapia por causa dos estragos nas pernas e nos braços, passa pela terapia por causa dos olhos, necessita de reaprender a viver, desta feita sem o bem precioso da visão, mas apenas e só passa. Nada a prende. De que lhe serve andar, mexer-se de novo bem se os olhos já não a levam a lado nenhum? De que lhe serve a mobilidade, a liberdade de movimentos se a beleza que a rodeia se perdeu para todo o sempre? A força interior que sempre a movera perdera-se diluíra-se na cegueira, agora era uma mulher sem vontade, sem animo ou coragem a que se ia adaptando à noite que a amarrava ao medo, aos passos hesitantes e tímidos, aos tropeções e quedas, à reaprendizagem que a muito custo seguia. Para quê? Porquê? Perguntas para as quais não encontrava resposta, apenas e só o pesadelo de quem sempre vira, de quem sempre soubera onde estava como se mexer em qualquer espaço, conhecido ou não, e agora ia de mãos na frente, temerosa, encolhida, sempre à espera do próximo tombo, do próximo tropeção. Em casa geria bem os seus próprios passos, claro! Conhecia bem o chão que pisava, mas…
Saindo do ninho que a acolhia e onde se sentia o menos infeliz que lhe era possível, era um tormento que quase não suportava, e invariavelmente acabava numa crise incontrolada e sentida de choro.
Passaram-se os meses, aprendeu Braille, e aos poucos a vida ia sendo um fardo um pouco mais leve, mas o seu coração estava tão negro como o veludo que os seus olhos viam. Recomeçou a trabalhar, iam busca-la e leva-la, rodeavam-na de carinho e atenção, ao mesmo tempo que a incitavam a viver, a sorrir a ser de novo a mulher alegre e bem disposta que sempre fora. Não era o fim do mundo, estava viva! Mas o seu sorriso agora pálido e amargurado perdera o brilho e a espontaneidade que sempre tivera. Envelhecera, o seu corpo elegante e bem trabalhado no ginásio a que não faltava, era agora um invólucro sem graça e sem gosto, encolhido sobre si mesmo, os passos incertos jamais ganhariam o garbo de outrora em que se orgulhava de forma como pisava o solo, com elegância e correcção. A seu lado o cão guia que fora treinado para a acompanhar era o único que parecia compreender o desespero e tristeza profunda em que aquela alma se afundava de dia para dia, acertava o passo pelo dela, latia e fazia-a sentir a sua presença quase humana. Nessas alturas as lágrimas saltavam-lhe dos olhos e enterrava o rosto molhado no pelo sedoso do animal que se sentava e gania baixinho acompanhando-a na sua dor. Afeiçoara-se ao bicho e muitas vezes saía para que o animal tivesse o seu tempo de “desenferrujar as patas” como lhe dizia baixinho, forçava-se ao passeio pelo jardim que ficava perto de sua casa e sentia que o seu companheiro apreciava e dava valor ao seu esforço e assim, aos poucos, foi descobrindo que os seus outros sentidos se desenvolviam para compensar a visão perdida, o olfacto e o tacto eram-lhe agora preciosos e imprescindíveis. Aos poucos a vida vinha até si de uma outra forma, com uma intensidade que até ali lhe era desconhecida, os seus dedos desdobravam-se e reconheciam mil texturas que antes quase não distinguia, e às suas narinas chegam fragrâncias subtis que não lhe eram outrora familiares, também o ouvido se tornara apurado e mais atento. A vida chegava até si e tocava-a de uma forma nova e desafiadora, era um recomeçar do nada.
Um ano passara e com o seu companheiro de quatro patas o seu sorriso de outrora e o passo mais confiante, ela vencera; Renascera.

1 comentário:

Gui disse...

Que história minha amiga! Magistralmente escrita. Tudo o que escreveste é a pura realidade. A vida só acaba com a morte, até lá a vida é sempre vida, embora por vezes tenha que ser vivida de forma diferente. E quantas vezes nos sentimos infelizes, sós, incompreendidos, abandonados, por vezes desprezados, quantas vezes lamentamos a nossa vida triste sem imaginarmos que um dia ainda poderemos vir a sentir saudades dela. Parabéns minha amiga pelo teu talento. Um beijo grande.