quarta-feira, novembro 07, 2007

NOTAS SOLTAS III

....Alberto afasta-se discretamente para que a rapariga ao acordar não se assuste, já basta estar numa casa desconhecida e ter um rosto masculino e ansioso sobre o seu. Aos poucos a cor vai voltando, e os olhos entreabrem-se a medo, mostrando uma estranha cor de avelã. Armando também recua um pouco, o suficiente para que ela se mexa à vontade e vá entrando na realidade que a rodeia o menos bruscamente possível. Os lábios movem-se e um fio de voz faz-se ouvir, Armando, esquecido do seu propósito aproxima-se rapidamente tomando-lhe uma das mãos pendentes, que provoca nela uma agitação violenta e um grito rouco acabando por se sentar hirta e apavorada no sofá, tremendo convulsivamente. Os olhos percorrem a sala num pânico desmedido e acabam pousando nas duas figuras masculinas que a olham sem saberem bem o que fazer.
A pergunta, onde estou, soa num misto de medo e desespero. Armando ajoelha-se ao lado do sofá e em voz baixa e quente, pergunta-lhe se se lembra do que aconteceu. Duas lágrimas correm pelos estranhos olhos e mais duas se seguem, a cabeça pende para a frente como que escondendo uma dura realidade que não quer conhecida, que não quer revelar. E um simples aceno de cabeça responde à pergunta.
“ – Então se se recorda do que aconteceu, sabe que esta estrada não tem saída, verdade?” – Perguntou Alberto do seu canto.
“ – Sei, há muito que sei que este caminho leva à falésia, e há muito que o faço sem nunca ter chegado ao destino….Hoje foi só mais uma tentativa….Falhada de novo!” – Responde em voz sem cor.
“ – Posso saber qual o seu nome?” – Perguntou Armando preso da bela desconhecida.
“ – Que lhe importa o meu nome? Sou alguém que impediu de ser finalmente feliz! Deve bastar-lhe!” – Responde a moça com um desespero profundo na voz.
“ – Ser feliz?! O que é ser-se feliz, sabe dizer-me? É que também eu busco a felicidade, tive-a nas mãos e ela fugiu um dia, afastou-se de mim, naquelas falésias. Por isso não me venha dizer que os rochedos trazem a felicidade, garanto-lhe que são apenas portadores de uma infelicidade sem fim….Sei do que falo! Acredite! Mas…Como se chama?” – Disse Armando com a voz igualmente embargada pela comoção.
Ela levantou os olhos para ele e encarou-os pela primeira vez, mergulhou na limpidez e na tristeza profunda que os invadia, e aos poucos foi acalmando, aquele homem trazia no peito uma angústia e uma dor semelhantes à sua…
“ – Diana. Chamo-me Diana.” – Disse estendendo a mão que entretanto tinha retirado das mãos dele.
“ – Muito prazer, Armando Vasconcelos, seja bem vinda Diana, pena que nestas circunstancias….Como se sente?” – Disse um Armando ajoelhado de novo ao lado dela e de alguma forma rendido à beleza estranha e irradiante da rapariga.
“ – Estou tonta, e dorida, mas peço-lhe apenas que me deixe partir, não quero ficar aqui, quero ir embora.” –
“- Lamento desiludi-la Diana, mas esta noite ficará sim, porque o seu carro está mais no fundo da ribanceira do que cá em cima, aproxima uma noite de temporal e eu não vou deixa-la partir assim, voçe está ferida, está magoada e sem transporte. Eu e o meu criado vamos tentar puxar o seu veículo para um lugar mais seguro, mas nada nos garante que sejamos bem sucedidos, por isso, vou ser intransigente e não a vou deixar sair. Perdoe mas não!” – Soou segura e firma a voz de comando dele.
Ainda tentou levantar-se e provar que estava bem, que não queria ficar naquele local onde mais uma vez a sua tentativa de por termo à vida falhara, queria fugir dali, desaparecer, correr para outro local onde ficasse sozinha, sem que ninguém a visse. O peso do novo falhanço era-lhe insuportável. Não queria ver nem estar com ninguém, mas a pancada e o embate violento que sofrera falaram mais alto e ao tentar pôr-se de pé, caiu desamparada para a frente indo aterrar nos braços de Armando, que atento aos seus movimentos, rapidamente a amparou. Sem uma palavra volta a deita-la, lívida, na chaise longue, e sem mais volta-se para o cão que, silenciosamente aguardava a ordem, e saem. Alberto ainda diz que não é muito boa ideia deixarem a rapariga sozinha, porque está em nítido estado de choque e pode fazer uma nova tentativa de suicídio já que o que acabou de tentar falhara redondamente.
Armando arrisca e deixa-a deitada, saindo em passo lesto em direcção ao carro.
Entretanto o vento já soprava rijo e com rajadas vigorosas, chegaram ao carro que ainda oscilava no seu poiso periclitante. Com cordas e um guincho conseguiram puxa-lo para o caminho, e como tinha a chave, vieram com ele para casa arrumando-o dentro dos muros. A chuva já caía fria e fina e o vento uivava a bom uivar. Na sala reinava o silêncio só cortado pelo crepitar das chamas. A manta estava no chão e o sofá vazio. Alberto ia dizer que bem tinha avisado que era um erro, mas Armando travou-lhe a palavra, com um gesto. Aninhada num vão de uma das janelas estava Diana, parecendo uma criança medrosa e assustada, completamente enrolada sobre si mesma, sacudida por soluços brandos. Com toda a suavidade, Armando aproxima-se dela e, a medo, toca-lhe no ombro esperando uma reacção agressiva. Mas apenas e só o choro manso e incontrolado lhe deu resposta. Então com uma meiguice que há um ano ninguém lhe via, pega nela ao colo e trá-la de volta para o sofá, dizendo a Alberto que vá preparar o quarto dos hóspedes, porque ela precisa de comer alguma coisa quente e dormir.....


(continua...)

2 comentários:

Anónimo disse...

Mas que conto lindo. Tenho que ir ler as duas primeiras partes. Esta deixou-me fascinado. Excelentemente escrito sentem-seas tensões, as emoções e os sentimentos no ar. De mestre. Um beijo e quero mais.

O Profeta disse...

Mais um fascinante conto de uma sublime ficcionista...

Arranquei as cordas à viola
Calei este altivo tambor
Emudeci meu prazenteiro canto
Sou tecelão de sentires no vale do desamor


Bom fim de semana


Mágico beijo

CAIS DE ANTEPASSADAS PEDRAS

Imagem retirada da ne t Um rasto de luz, uma porta entreaberta, um sopro de verde, uma lágrima de vento,...